Cultura e Pessoas

O que é ser Purple People ?

Por Cláudia Nogueira | 22 de April de 2022

Desde que li o livro de Wayne Eckerson (1) tive a sensação de que finalmente alguém tinha conseguido colocar em palavras o que fazemos profissionalmente na nossa empresa. Temos como foco colocar os dados no dia a dia dos negócios, diminuindo o gap entre o saber e o fazer.

Eckerson foi didático e denominou estes profissionais de Purple People. Hoje (12/09/2021) o Estadão destacou que os Gestores das Áreas de Tecnologia (Chief Tecnological Officer) estão assumindo postos de CEO, pois cada vez mais a tecnologia é valorizada em todas as atividades da organização. O que estes CTOs têm em comum? São líderes Purple ?

O que é ser Purple People?

É a mistura de azul com vermelho.

Eckerson usou o azul para indicar habilidades e conhecimentos sobre negócios e o vermelho para representar os relativos à tecnologia (Eu talvez fizesse o contrário – pelo calor que existe no negócio, mas isso não diminui a minha simpatia pelas as ideias dele).

Purple People são profissionais que surgiram da necessidade de mudar a forma como fazemos as coisas num mundo tecnológico.  

Eles existem há muitos anos. Nasceram antes mesmo do advento do computador. São pessoas que transitam muito bem entre estes dois mundos. São capazes de falar estas duas línguas, alguns chamam estas pessoas de Tradutores, mas não são apenas tradutores, pois pensam com o “cérebro da cabeça e dos dedos”.

Para entender estes “cérebros” tomamos aqui emprestado as ideias de Saramago (2) que de forma brilhante descreveu como as coisas se processam em nós.

“Para que o cérebro da cabeça soubesse o que era a pedra, foi preciso primeiro que os dedos a tocassem, lhes sentissem a aspereza, o peso e a densidade, foi preciso que se ferissem nela. Só muito tempo depois o cérebro compreendeu que daquele pedaço de rocha se poderia fazer o que se chamaria faca … O cérebro da cabeça andou toda vida atrasado em relação às mãos, e mesmo nestes tempos, quando nos parece que passou à frente delas, ainda são os dedos que têm de lhe explicar as investigações do tato…”

No presente texto vamos tomar as pedras como sendo os dados. Então, de certa forma, as Pessoas Purple colocam as mãos na massa dos dados (ativando estes pequenos cérebros que têm em cada um dos dedos das mãos), dando forma útil a esta matéria prima.

A palavra Handwerk (do alemão), pode ser traduzida como “ofício” em Português, é composta pela palavra  Hand = mão e Werk = trabalho; o que ao  pé da letra seria “trabalho manual”. Mas num mundo de tanta TEC … falar em trabalho manual será que dá status ?

Então … Para ser Purple People é necessário reunir o cérebro da cabeça com o cérebro das mãos. Quando um profissional se reconhece nessa função – tem com ele uma alegria do saber fazer, mas a tristeza de não saber explicar “como faz”. É um profissional da cognição.

Os mestres nessa função têm uma certa sabedoria para lidar com a tecnologia e isso aconteceu pois vivenciaram na prática muitas situações que dão a eles um status de resolver problemas usando tecnologia e dados (aquilo que está dentro do computador). E para aprender a ser Purple o processo é mais por aproximação com outros Purples do que por alguma forma de treinamento rápido e altamente tecnológico.

O conhecimento hibrido, envolvendo negócios e tecnologia, não é padronizado, é muitas vezes difícil de adquirir e leva um certo tempo. O aprendizado se dá, muitas vezes, por meio da experiência de trabalho.

Se quer se desenvolver na área e tiver sorte de encontrar um Purple pelo caminho, fique o mais próximo possível. Não tenha medo, reserve um tempo, confie e se atire a fazer e aprender o Ofício.

Na verdade Purple People são humanos que aumentam o poder dos sistemas e máquinas. Eles fazem a tecnologia funcionar. São pessoas dispostas a pular no problema e resolver – pois estão em busca dos resultados.

Eles conhecem tecnologia, usam inteligência artificial e machine learning como parte do trabalho e não como fim . Têm experiência prática em alcançar resultados (ou estão em busca dele). Seu principal foco é tornar a tecnologia útil. Por trás de um Excelente Robô, sempre tem um Purple.

Bem – mas estas pessoas sempre existiram na história. Veja o exemplo dado por Tom Davenport (3). A indústria têxtil já foi o Vale do Silício. Para fazer essas tecnologias funcionarem, um quadro de pessoas experientes teve que arregaçar as mangas e fazer a coisa toda funcionar.

Parece que sempre existiram estas pessoas que criam pontes entre ambientes técnicos e de negócios. São pessoas que entendem principalmente aonde se tem que chegar, entendem as partes e conseguem ver o todo. Qualquer semelhança com o texto abaixo não é mera coincidência.

“No início a empresa não tinha ninguém para dar partida no maquinário; e as pessoas começaram a ficar desanimadas. A urdidura(4)  funcionava mal, a cômoda pior, e o tear não funcionava. Nesse dilema, um inglês inteligente, embora destemperado, um tecelão de profissão, veio ver o maquinário. Depois de observar a operação miserável, ele disse que a falha não estava no maquinário e pensou que poderia fazê-la funcionar; ele estava empregado. O desânimo cessou; não era mais um experimento. Fabricantes de todas as direções vieram ver a maravilha. ”5

Quantos já não presenciaram e vivenciaram uma implementação difícil e complexa envolvendo soluções de tecnologia ?  E se não tem pelo menos um Purple nesse momento, tudo pode dar errado.

Purples têm forte experiência em negócios, uma curiosidade e paixão por pessoas e dados (alguns parece que já nasceram apaixonados). Embora habilidades técnicas sejam muito apreciadas, incluindo familiaridade com conceitos estatísticos e sobre algoritmos, sabemos o quanto é importante estar atento ao entendimento do negócio, saber se comunicar com os outros e trabalhar com eficiência em equipe, sem ter medo de colocar a mão na massa dos dados e desafiar a tecnologia (que sempre terá potencialidades e limitações).

O mundo precisa, cada vez mais de Purple People – até pelo fato de que somos por natureza irracionais nas nossas decisões. Um dos vieses que carregamos conosco (humanos) é o de buscar recompensas rápidas.

Às vezes queremos acreditar que o “sistema tal” vai fazer acontecer, e que tudo nele já está pronto, basta integrar. Entramos no chamado “Viés do Desconto Hiperbólico”, um conflito interno por querermos acreditar que teremos um ganho no curto prazo, mas o verdadeiro ganho virá mesmo no tempo (tijolo por tijolo – BEM COLOCADO).

Você é um Purple? Se sim, entre em contato com a gente, queremos conhecer você. Se não tem certeza ou quer se tornar um, temos um convite: estamos criando um processo de capacitação que permitirá vivenciar o dia a dia dos negócios e dos dados.

Se tiver interesse em formar sua equipe ou de se autodesenvolver, entre em contato. Queremos planejar esse processo junto a cada um de vocês. O mundo precisa, cada vez mais de pessoas com esse perfil.

Obrigada pela disposição de ler nosso texto 😉 e aproveite as leituras referenciadas.

(1)Eckerson, Wayne. Secrets of Analytical Leaders: Insights from Information Insiders (pp. 3-4). Technics Publications, LLC. Edição do Kindle. 

(2) SARAMAGO, José. A Caverna. Companhia das Letras: São Paulo, 2.000, p. 85-86

(3) https://www.tomdavenport.com/published-articles/

(4) A urdidura é o conjunto de fios, colocados paralelos uns aos outros, no sentido do comprimento do tear. 

(5) James Bessen, Learning by Doing: The Real Connection Between Innovation, Wages, and Wealth (Yale University Press, 2015), p. 17 – tradução.

Cláudia Mendes Nogueira

Cláudia Mendes Nogueira (D.Sc.) – CEO na Oficina de Valor

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